terça-feira, agosto 19, 2008
segunda-feira, agosto 11, 2008
A vida é um pisca-pisca!
" (...)- A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem pára de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos - viver é isso. É um dorme e acorda, dorme e acorda, até que dorme e não acorda mais.[...] A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim pisca pela última vez e morre.- E depois que morre? - perguntou o Visconde.- Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?"[Monteiro Lobato - Memórias de Emília]
...E eu tenho mesmo sentido assim. Que a vida é isso: Piscar e piscar e piscar.Ai como cansa a vida, esse pisca-pisca sem fim. É a roupa de cama que já tinha que ter sido trocada, os cabelos que caem todos, a depilação pra ser feita, a NET que tem que vir instalar alguma coisa, ou aquela ligação que precisamos retornar... Não acaba nunca, o pisca-pisca, é sem fim, sempre dormir e acordar e dormir e acordar de novo, pra sempre, eternamente, até um dia...um dia só, onde não haverá um pisca-pisca. Não haverá mais o incansável dormir e acordar. Um dia. Dormir.
sábado, agosto 09, 2008
quarta-feira, agosto 06, 2008
as não-escolhas de cada um
Para minha amiga Selma e aquela nossa conversa de hoje ao celular
A vida é feita de escolhas. Dizem. E deveria ser, hipoteticamente. Lembram do tal do livre arbítrio? No entanto, dia após dia, a vida se forma por caminhos novos ao quais, às vezes, sequer notamos, muito menos escolhemos. A vida se forma, para alguns – talvez a maioria – de não escolhas. As escolhas que não fazemos, a atitude que não tomamos, o telefonema que não atendemos. A vida se faz do dia-a-dia, do acordar e dormir, de coisas práticas como contas a pagar, problemas a resolver e esse mar de burocracias e necessidades diárias é que são as nossas escolhas, às avessas, porque não nos damos conta. Talvez por isso, nos transformamos em algo tão diferente do previsto. Talvez por isso, quando vemos estamos em um lugar não antes programado, nada planejado, talvez, nunca nem sonhado. Há tanto a se fazer no dia-a-dia, que quem é que tem tempo de pensar em escolhas? Precisamos renovar a carteira de motorista, fazer comida, limpar atrás do armário, consertar o carro, trocar de celular, pedir nota fiscal, perder uns quilos, comprar um sapato ou ir ao médico...
E é assim que formamos a nossa vida. Não porque escolhemos ser professora, mas porque, um dia, alguém te deu uma ficha pra preencher e você tinha dezoito anos e preencheu. Não porque escolheu ser isso, mas porque não escolheu ser outra coisa. Não escolhemos ser quem somos, simplesmente precisamos fazer alguma coisa e quando não entramos para o curso de teatro é que decidimos que talvez, sejamos professores, ou caixa de banco, ou vendedora de loja, ou qualquer coisa assim.
Entramos numa faculdade que escolhemos? Não. Entramos na que deu, naquilo que ia ser mais ou menos acessível, mais ou menos bom, viável. Tanta gente queria ser atriz, cantora, astronauta, mas, ao invés de escolherem isso não escolheram nada e, por isso, viraram donas de loja, empresárias, psicólogas... Talvez de sucesso, inclusive. Muitas vezes as não escolhas foram boas, o acaso pode ter sido generoso, e mesmo que você não tenha remado o vento pode te levar para um lugar bom. Ou não. Ou acordamos um dia, provavelmente perto dos 30 e notamos que enquanto esperávamos a vida começar, ela já andou, está quase na metade e, opa, quem foi que dirigiu esse filme? Ninguém. Não houve direção, roteiro nem coreógrafa. Você viveu e não teve tempo de escolher. Essas não escolhas, todas, foram a sua escolha e você não viu.
Não acontece com todo mundo. Há os que escolhem e insistem. Fazem uma força danada, escolhem seu próprio destino, batalham por ele com afinco e, normalmente, se tornam admiráveis. Mas são poucos. Normalmente, vivemos sem escolher. Não escolhemos tentar mil vezes fazer teste na globo, não escolhemos viver de teatro, não escolhemos ser jogadoras de vôlei, não escolhemos juntar dinheiro e ir para a França ou Nova Iorque. Não escolhemos o que queríamos e, dessas não-escolhas, é que se forma a nossa vida, boa ou má, pacata ou movimentada, não importa.
As suas escolhas são as suas não escolhas, e seus dias não serão ditados pelo que você sempre quis, pelos seus maiores sonhos ou anseios. A sua vida será ditada pelas coisas que deixou de fazer, pela preguiça de ir a academia, pela comodidade da sua cidadezinha, ou pela delícia que é pipoca-tv e namorado, mesmo que ele, também não seja lá essas coisas mas foi, afinal de contas, quem cruzou o seu caminho bem naquele dia, bem naquela chuva, bem numa sexta-feira quando você tinha escolhido ficar sozinha.
segunda-feira, agosto 04, 2008
Hoje é 4 de agosto mas o verão este ano acabou cedo demais!
Acordei com um nó na garganta: hoje seria aniversário da minha avó, caso estivesse viva: 85 anos. Era a pessoa mais honesta, íntegra, paciente e meiga que conheci. Sempre autodidata e inteligente, mas que nunca teve chance de estudar. Era minha parceira de livros e filmes além de excelente contadora de histórias. Hoje, fico assim, miúda, querendo apenas abraçar. Era tão fácil estender os braços até ela.
Hoje, queria apenas que estivesse aqui, encostada em mim, até sair pelos seus poros as gotinhas de amor e só soltá-la quando encharcar minha roupa com cheiro de "acabei de passar". Vovó, queria beber seu café, sentar na cozinha pra vê-la preparar um biscoito, comprar todas as revistas de costura que estivessem nas bancas. Te falar do meu amor, do seu e daquele que nunca me canso de sentir por você. Explicar meus planos, ouvir teus casos. Dividir nossas horas e um pedaço de doce. Chegar em casa, encontrar seu sorriso e receber seu beijo todas as noites. Você era de longe a pessoa mais especial desse mundo, sempre tão cheia de qualidades que até assustava. Você era tudo o que eu gostaria de ser. Era para mim o alívio. Daqueles 'ufas' que a gente solta depois do alongamento. Um travesseiro pra repousar a cabeça. Quero de você nem mais nem menos coragem, apenas aquela que você teve na medida exata.
Sinto tanta saudade...
E é isso o que te ofereço hoje, vó: a torta de sorvete feita por mim, nosso pratinho esmaltado, nossos moldes de crochê, um monte de livros e filmes, a máquina de costura, a xícara de café bem forte e uma vontade de chorar de tanto que meu peito dói de saudade, embora alguma coisa me diga que você deve estar por aí, recebendo meus presentes, meu pensamento, em alguma fazenda florida (que você tanto gostava...) dentro do céu, com aquele sorriso que você tinha todos os dias aqui na Terra.
PS.: Ela foi embora quase dormindo no dia 26 de janeiro de 2008."Desde então entendi melhor os versos de Chico "Tristeza não tem fim/Felicidade sim".



