as não-escolhas de cada um
Para minha amiga Selma e aquela nossa conversa de hoje ao celular
A vida é feita de escolhas. Dizem. E deveria ser, hipoteticamente. Lembram do tal do livre arbítrio? No entanto, dia após dia, a vida se forma por caminhos novos ao quais, às vezes, sequer notamos, muito menos escolhemos. A vida se forma, para alguns – talvez a maioria – de não escolhas. As escolhas que não fazemos, a atitude que não tomamos, o telefonema que não atendemos. A vida se faz do dia-a-dia, do acordar e dormir, de coisas práticas como contas a pagar, problemas a resolver e esse mar de burocracias e necessidades diárias é que são as nossas escolhas, às avessas, porque não nos damos conta. Talvez por isso, nos transformamos em algo tão diferente do previsto. Talvez por isso, quando vemos estamos em um lugar não antes programado, nada planejado, talvez, nunca nem sonhado. Há tanto a se fazer no dia-a-dia, que quem é que tem tempo de pensar em escolhas? Precisamos renovar a carteira de motorista, fazer comida, limpar atrás do armário, consertar o carro, trocar de celular, pedir nota fiscal, perder uns quilos, comprar um sapato ou ir ao médico...
E é assim que formamos a nossa vida. Não porque escolhemos ser professora, mas porque, um dia, alguém te deu uma ficha pra preencher e você tinha dezoito anos e preencheu. Não porque escolheu ser isso, mas porque não escolheu ser outra coisa. Não escolhemos ser quem somos, simplesmente precisamos fazer alguma coisa e quando não entramos para o curso de teatro é que decidimos que talvez, sejamos professores, ou caixa de banco, ou vendedora de loja, ou qualquer coisa assim.
Entramos numa faculdade que escolhemos? Não. Entramos na que deu, naquilo que ia ser mais ou menos acessível, mais ou menos bom, viável. Tanta gente queria ser atriz, cantora, astronauta, mas, ao invés de escolherem isso não escolheram nada e, por isso, viraram donas de loja, empresárias, psicólogas... Talvez de sucesso, inclusive. Muitas vezes as não escolhas foram boas, o acaso pode ter sido generoso, e mesmo que você não tenha remado o vento pode te levar para um lugar bom. Ou não. Ou acordamos um dia, provavelmente perto dos 30 e notamos que enquanto esperávamos a vida começar, ela já andou, está quase na metade e, opa, quem foi que dirigiu esse filme? Ninguém. Não houve direção, roteiro nem coreógrafa. Você viveu e não teve tempo de escolher. Essas não escolhas, todas, foram a sua escolha e você não viu.
Não acontece com todo mundo. Há os que escolhem e insistem. Fazem uma força danada, escolhem seu próprio destino, batalham por ele com afinco e, normalmente, se tornam admiráveis. Mas são poucos. Normalmente, vivemos sem escolher. Não escolhemos tentar mil vezes fazer teste na globo, não escolhemos viver de teatro, não escolhemos ser jogadoras de vôlei, não escolhemos juntar dinheiro e ir para a França ou Nova Iorque. Não escolhemos o que queríamos e, dessas não-escolhas, é que se forma a nossa vida, boa ou má, pacata ou movimentada, não importa.
As suas escolhas são as suas não escolhas, e seus dias não serão ditados pelo que você sempre quis, pelos seus maiores sonhos ou anseios. A sua vida será ditada pelas coisas que deixou de fazer, pela preguiça de ir a academia, pela comodidade da sua cidadezinha, ou pela delícia que é pipoca-tv e namorado, mesmo que ele, também não seja lá essas coisas mas foi, afinal de contas, quem cruzou o seu caminho bem naquele dia, bem naquela chuva, bem numa sexta-feira quando você tinha escolhido ficar sozinha.


2 Comments:
A madrugada foi produtiva, hein?
Estive pensando nessas coisas que acontecem na vida da gente sem que nem percebamos direito. Para onde vamos, o que fazemos, com quem estamos, o que comemos... Principalmente depois que conversamos no MSN aquele dia.
E parece que hoje você resolveu a questão! A gente escolhe uma coisa e depois, devido a todas as pressões que você citou e muitas outras mais, à falta de condições, tempo, dinheiro, motivação e esperança que são nossas vidas hoje (salvo raras exceções), acabamos tomando rumos alheios, empurrados pelo vento, pela falta de substrato da vida.
Ó meu Deus!
TES
Tes, "você sabe em que espelho ficou perdido o meu rosto"
É sempre bom conversar com você! Te adoro!
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