>>> ressaca eleitoral <<<
Como a repetição é o grito da vez, registro, antes, a definição de crônica de Artur da Távola. "A crônica nos obriga à síntese, à capacidade de condensar emoções em parágrafos-barragem. Faz-nos prosseguir, mesmo quando nos sentimos repetitivos. É, pois, a expressão jornalístico-literária da necessidade de não desistir de ser e sentir. A crônica é o samba da literatura"
crônica repetida
Quando, por preguiça ou falta de assunto, o cronista adia sua crônica até a última hora, e as trinta linhas que o separam do estalo da primeira idéia até o alívio do dever cumprido parecem saltar do papel, eis que só se resta lançar mão de um recurso desesperado: a crônica repetida.
A crônica repetida vem neste momento de angústia em que a gaveta, este depositório de parágrafos mal-acabados, se abre para que ele procure, entre as contas atrasadas e o exemplar do novo testamento, um fragmento original, e que serviria perfeitamente para o cumprimemto da sua obrigação, este texto que repete aos outros.
Quantas crônicas ainda serão repetidas sobre domingos-passados?
Aqui neste espaço, como vocês hão de confirmar, já se abusou da repetição. Pensando bem, não se trata somente de uma questão de preguiça ou falta de assunto, como apontei no começo... Coisas interessantes acontecem diariamente, e vai da disposição convertê-las em crônica. Mas aí está a raiz do problema: a disposição do cronista.
O que fazer com essa maldita ressaca?
É aí que, quando não escreve sobre a falta do que escrever (todo cronista que se preze tem uma crônica sobre o tema), o sujeito escreve sobre aquele recurso pouco inspirado ao qual ele apela em momentos de covardia: o de repetir uma crônica antiga e seguir entretendo os leitores, como se nada tivesse acontecido.
Pô... mais quatro anos...
Ps. Ainda tento recuperar-me do enxovalho eleitoral de ontem, acordei dormente e desarticulada



