segunda-feira, outubro 30, 2006

>>> ressaca eleitoral <<<

Como a repetição é o grito da vez, registro, antes, a definição de crônica de Artur da Távola. "A crônica nos obriga à síntese, à capacidade de condensar emoções em parágrafos-barragem. Faz-nos prosseguir, mesmo quando nos sentimos repetitivos. É, pois, a expressão jornalístico-literária da necessidade de não desistir de ser e sentir. A crônica é o samba da literatura"
crônica repetida
Quando, por preguiça ou falta de assunto, o cronista adia sua crônica até a última hora, e as trinta linhas que o separam do estalo da primeira idéia até o alívio do dever cumprido parecem saltar do papel, eis que só se resta lançar mão de um recurso desesperado: a crônica repetida.
A crônica repetida vem neste momento de angústia em que a gaveta, este depositório de parágrafos mal-acabados, se abre para que ele procure, entre as contas atrasadas e o exemplar do novo testamento, um fragmento original, e que serviria perfeitamente para o cumprimemto da sua obrigação, este texto que repete aos outros.
Quantas crônicas ainda serão repetidas sobre domingos-passados?
Aqui neste espaço, como vocês hão de confirmar, já se abusou da repetição. Pensando bem, não se trata somente de uma questão de preguiça ou falta de assunto, como apontei no começo... Coisas interessantes acontecem diariamente, e vai da disposição convertê-las em crônica. Mas aí está a raiz do problema: a disposição do cronista.
O que fazer com essa maldita ressaca?
É aí que, quando não escreve sobre a falta do que escrever (todo cronista que se preze tem uma crônica sobre o tema), o sujeito escreve sobre aquele recurso pouco inspirado ao qual ele apela em momentos de covardia: o de repetir uma crônica antiga e seguir entretendo os leitores, como se nada tivesse acontecido.
Pô... mais quatro anos...
Ps. Ainda tento recuperar-me do enxovalho eleitoral de ontem, acordei dormente e desarticulada

sexta-feira, outubro 27, 2006

> desconstrucionismo filosófico <

Platão comentou com Sócrates, lá de cima: "- ei, é impressão minha ou esses caras estão separando tudo que a gente conseguiu unir?" E Aristóteles se intrometeu: "- vocês já ouviram falar em desconstrucionismo?" E um sorriso escorreu no canto dos lábios de cada um.

>>> sobre a morte <<<

Se Deus dá a vida à maneira que tira, se Deus escreve certo por linhas tortas, por que Deus não tratou de melhorar a sua caligrafia antes de nos fazer mortais, espelho trincado de nós mesmos, guerreiros de um tempo inglório, de um tempo que não se pode vencer, que sobrepuja até sua própria noção, até a própria noção de eternidade?

quarta-feira, outubro 04, 2006

>>> hipocrisia do ser <<<

O discurso meta(eu)fórico de Hugo Chavez ainda não me saiu da cabeça. Não estaria nosso vizinho em seu discurso na ONU fazendo qualquer citação ao caso Cicarelli, dada a sua relevância como assunto mundial? Não seria o diabo o paparazzo ou mesmo a doce - eva Cicarelli? Ou era a serpente do Tato Malzoni? Com tanto enxofre espalhado na mão de churrasqueiros por aí dá para imaginar que a sugestão de Chavez para a transferência da ONU ao Brasil fosse pela amplitude e relevância desse caso.
Já Lula, o presidente-candidato, há poucos dias da (re)eleição, falou em discurso aos prefeitos aliados que “é preciso que o povo saiba de tudo”. A princípio imaginei que o presidente se referia ao caso do dossiê contra candidatos do PSDB. Aquele cuja negociação teria contado com a participação de petistas e amigos do presidente com cargos no governo. Estava enganada, melhor “ele não sabia de nada”. Depois pensei em Saddam e sua expulsão da corte de julgamento; depois lembrei da tentativa de golpe de estado na Tailândia e do ‘arranca-rabo’ entre os muçulmanos e o Papa alemão. Mas a experiência novamente me trouxe à razão: o presidente discutia mesmo era o caso Cicarelli... esse sim é o escândalo do momento abraçado pela imprensa brasileira.
Num país como o nosso a imprensa busca opinião séria sobre assuntos de relevância nacional. Devo destacar aqui a chamada da Folha que registra a opinião da garota de programa aposentada, a escritora Raquel Pacheco, mais conhecida como Bruna Surfistinha, que tece suas críticas a modelo Daniella Cicarelli. O motivo é o famoso vídeo gravado por um paparazzo em que apresentadora da MTV aparece em cenas picantes com o namorado em uma praia na Espanha. O vídeo que mostra Cicarelli e Malzoni chegou inicialmente ao YouTube no último domingo. Diversas outras cópias estão sendo disponibilizadas no site, que as remove poucos minutos após entrarem no ar.
Bruna Surfistinha, nossa Paulo Coelho do sexo, que tem recentemente colhido os frutos de seu best-seller, e se prepara para uma série de viagens em função do lançamento de seu livro na Europa, pode sim ser considerada uma autoridade no assunto. A escritora, confessadamente arrependida, protagonizou três filmes pornôs que também circularam livremente pela internet. Freud diria sobre a hipocrisia do ser que Lula e Surfistinha, um sob a máscara do esquecimento e o outro do equívoco, invocam como justificação a ausência de más intenções.
Exemplos de hipocrisia podem ser encontrados em todos os lugares. William Bennett, conselheiro dos EUA admitiu ter perdido US$8 milhões por causa de seu vício de jogo. Ken Lay da Enron, vendeu grandes porções de suas ações na Enron em setembro e outubro de 2001 conforme o preço caía, enquanto encorajava seus empregados a comprar mais ações, dizendo a eles que a companhia iria se recuperar. Kim Jong Il, ditador coreano, exorta seus súditos a fazer sacrifícios enquanto vive num luxo ostentoso. Tom DeLay, político dos EUA, promoveu uma legislação extraordinária para salvar Terri Schiavo embora já tivesse permitido a seu pai ser removido dos aparelhos de suporte vital.
Pra nós que vivemos com Lula no país da hipocrisia, exemplos clássicos de atos hipócritas, como denunciar alguém por realizar alguma ação enquanto realiza a mesma ação, não passam de histórias da carochinha. Quem acredita?