domingo, setembro 24, 2006

>>> Minhas Contr(a)ções <<<

Eu já nem lembro pronde mesmo que vou, mas vou até o fim’. Chico já poetizava a semelhança entre a contração gramatical e a muscular. Se uma única contração muscular é o resultado de milhares de ciclos de formação e de pontes orgânicas, as contrações gramaticais seguem um princípio semelhante: várias preposições se ligam a palavras de outras classes, passando a constituir um único vocábulo: uma ponte.
Fiquei pensando no sentido da palavra ponte, pelo menos o mais comum, o que faz parte do imaginário coletivo: construção que permite interligar pontos não acessíveis. Permite passagens que permitem ações.
Uma ação ou uma contra ação, tal como os filósofos usam o termo, é a coisa que uma pessoa pode fazer ou deixar de fazer. Atirar uma bola, que requer uma intenção e um movimento corporal coordenado, é uma ação. Mas há eventos mais difíceis de classificar como sendo ações ou não.
Tomar uma decisão pode ser considerado como uma ação por alguns, mas para outros só será uma ação se essa decisão for concretizada. Tentar fazer algo sem o conseguir pode também não ser considerado uma ação, uma vez que a intenção não foi realizada. Acreditar, ter uma intenção, ou pensar também podem ser considerados como ações, no entanto, podem não ser devido ao fato de se referirem aos estados puramente internos.
De fato, podemos definir ação como algo que exige um movimento (behaviorista) , mas por outro lado, até a mera existência pode ser considerada uma ação. Assim os efeitos das ações também podem ser considerados como ações em certas circunstâncias. Envenenar um poço é uma ação. Se a água envenenada resultar numa morte, essa morte pode ser considerada uma ação por parte da pessoa que envenenou o poço, quer seja considerada como um único ou dois atos.
Difícil é explicar a relação entre as ações e os seus efeitos; individualizar as ações relativamente a outras ações; explicar a relação entre a ação e as crenças e desejos que estão na sua origem, e as intenções com que são executadas.
As contr(a)ções, que aqui tornei ponte, e que etimologicamente retirei obstáculos, inclusive os gramaticais, penso que interligaram em mim pontos inacessíveis. Foi necessário que milhares de ciclos ocorressem para que cada contração dolorosamente existisse. Agora que minha ponte foi construída: “Pronde mesmo que vou? / Pra onde mesmo que vou?”
Ps. Contrações são suportáveis quando divididas. Só percebi atravessando a ponte... " mas vou até o fim".

terça-feira, setembro 12, 2006

Qualquer pessoa pode fazer poesia?

Qualquer pessoa pode fazer poesia?
Devo dizer que a poesia tem algo que não é dedutivo (pelo duto, pelo caminho lógico; do geral para o particular) nem indutivo (dentro do duto, do caminho; do particular para o geral). Há algo que Peirce chama de abdutivo afastado do duto previsível: a eureka, o insight, a maçã newtoniana. Aliás, a abdução é o caminho criativo, é o que aproxima ciência e arte. É o parece ser que exige depois o ato, a comprovação do cientista e a realização do poeta. E poeta é quem se gasta e se ganha nessa sinergia entre o método e a realização. E para isso não há receitas. E o que acontece após é o deleite, o gozo, diria até, funda mentalmente o estético do conjunto.
“Como é fácil escrever poemas“