O RJ para iniciantes
Nós Goianos nos ofendemos quando um forasteiro nos pergunta se nas ruas de Goiânia transitam onças e boiadas. Raras exceções os bois estão confinados e as onças no zoológico. Insinuações de que a Capital não saíra do mato, são complicadas num tempo em que nada ofende mais que ter um pé no atrasado cerrado bravio. Aprendamos com os cariocas que ganham dinheiro com o que em outros tempos só aparecia como rótulo à Cidade Maravilhosa, uma das cinco mais belas do mundo.
São os cariocas experientes mestres em turismo: o Rio mostra tudo o que tem de mais bravio e exótico. Obviamente, começa pelas favelas, que eram, num passado pouco distante, apagadas dos morros com os melhores retoques fotográficos.
Desbravadores do eco-turismo no asfalto, seus veículos 4x4, levam à floresta da Tijuca, e no alto do morro a atração internacional da Rocinha: um contato com as raízes do povo brasileiro.
Com as publicitárias favelas do cenário carioca surge um grande negócio: no mínimo três firmas rivais à JeepTour. E, pelo lugar que ocupa nas propagandas, as agências, com ufanismo prometem “a maior favela da América do Sul”.
Geralmente, localizadas próximo aos locais de subsistência, presta qualquer tipo de serviço – lícito ou ilícito. A favela também “exporta” serviços e horas de trabalho para o asfalto; recebe renda, em parte “importa” bens e serviços do asfalto, mas em função do tamanho e da renda média obtida, alimenta uma cadeia de empregos e atividades na própria favela, desde a cabeleireira-manicure até o “burrinho” que transporta materiais de construção nas costas para as encostas.
Esse microcosmo promove programações bem diversificadas: mergulho na rotina da Rocinha, “com visita a casas de moradores, creches e escolas, caminhadas por entre vielas e pelo centro de comércio do bairro”, além de conhecer o galpão da escola de samba e uma feira-livre com “comidas, bebidas e artigos de artesanato da região Nordeste”.
Os carros que levam mais de 1200 turistas por mês são relíquias das forças armadas compradas em sucatas. E os forasteiros como bons turistas, estão sempre vestidos a caráter: andam nas caçambas abertas, desmanchando os penteados ao sol e ao vento.
E os assaltos, balas perdidas e traficantes encastelados nos feudos? Seria o diferencial qualitativo do famoso turismo carioca? Apenas uma estratégia empresarial: empregam de preferência motoristas e cicerones da própria favela. Sabem aonde ir, e o que fotografar.
Existe algo de estranho na violência carioca, como também nas boiadas que andam soltas nas ruas Goianas.
A violência Carioca, de perto, parece bem adestrada.
Ps. Foto tirada na Lagoa Rodrigues Freitas no RJ, julho de 2006, na última das várias visitas feitas à cidade. Pasmem, nunca fui vítima de assalto ou bala perdida!
e-mail: fernandacinthya@uol.com.br


3 Comments:
Gostei da comparação, acho que a publicidade cria rótulos mesmo.
Achei a comparação maravilhosa. Temos o péssimo hábito de exaltar o que é externo ao nosso ambiente cotidiano. A nossa visão de uma cidade maravilhosa, veio, sim, através das grandes belezas naturais ostentadas no seu território, mas além disso, ao que a mídia nos passa como sendo, de fato, uma cidade maravilhosa, sem defeitos. Se em nossa Goiânia, uma capital amplamente destruida pela midia, passam 'tropas e boiadas', passam também os técnicos da CNEM descontaminando-a do Césio. Esta é a principal característica ressaltada por alguém externo a nossa cidade. Parabéns, Fernanda, seu texto, como sempre, dispensa comentários mais aprofundados, a respeito de um assunto, tratado por você com a mesma propriedade e dignidade de sempre. Sou teu fã! Do seu amigo Rildo Bento de Souza.
Quando fui ao Rio também não vi essa violência toda... A foto é linda, o texto idem. :)
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